Mães Africanas e o Método do Carregar no Corpo: O Impacto na Formação do BebêMães Africanas e o Método do Carregar no Corpo: O Impacto na Formação do Bebê

Tradição, Afeto e Neurodesenvolvimento

No âmago das práticas ancestrais de cuidado infantil, o método de carregar o bebê junto ao corpo — amplamente difundido entre diversas comunidades africanas — revela-se uma estratégia milenar profundamente conectada ao desenvolvimento biopsicossocial da criança. Muito além de um ato cultural ou de conveniência, essa prática representa um elo tangível entre afetividade, segurança emocional e estímulo sensorial, constituindo-se como um verdadeiro alicerce para a formação cognitiva e emocional nos primeiros anos de vida.

Este artigo tem como objetivo analisar, sob um viés técnico e antropológico, a relevância do carregamento corporal de bebês, especialmente no contexto africano, abordando seus impactos no neurodesenvolvimento, seus reflexos em práticas ocidentais e suas implicações para políticas de cuidado parental contemporâneo.


A Tradição do Carregar no Corpo: Contextualização Histórica e Antropológica

A prática do carregar no corpo na cultura africana

Uma prática ancestral com fundamentos comunitários

Em muitas sociedades africanas, o ato de carregar o bebê no corpo da mãe — geralmente por meio de panos amarrados nas costas ou no ventre — transcende a função de transporte. Ele é símbolo de pertencimento, segurança e conexão intergeracional. A mãe, envolta em suas tarefas cotidianas, mantém o bebê constantemente junto ao seu corpo, propiciando uma exposição contínua a estímulos ambientais, vocais e táteis.

A partir da perspectiva antropológica, tal prática está enraizada em uma cosmovisão comunitária, em que o cuidado infantil é compreendido como uma responsabilidade coletiva. A máxima africana “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” sintetiza o ethos de solidariedade e partilha que permeia essas sociedades, onde mães, avós, irmãs e vizinhas atuam como co-cuidadores ativos.

Pano como tecnologia afetiva

O uso do pano de carregar, geralmente confeccionado com tecidos coloridos e artisticamente estampados, vai além da estética. Ele atua como uma extensão do corpo materno, possibilitando regulação térmica, estímulo vestibular e estabilidade emocional ao bebê. Este contato contínuo reduz a frequência cardíaca da criança, regula os níveis de cortisol e aumenta a produção de ocitocina — hormônio diretamente associado ao vínculo afetivo e ao bem-estar.


Neurociência do Contato: Por Que o Corpo da Mãe é um Ambiente Ideal?

Benefícios do contato físico no desenvolvimento do bebê

Plasticidade cerebral nos primeiros anos

Os primeiros mil dias de vida — desde a concepção até os dois primeiros anos — constituem uma janela neuroplástica crítica, em que o cérebro humano está em acelerado processo de maturação sináptica. Durante esse período, estímulos sensoriais e interações afetivas moldam estruturas cerebrais fundamentais para a linguagem, a cognição e a regulação emocional.

Estudos em neuropsicologia demonstram que bebês carregados no corpo apresentam:

  • Maior atividade no córtex pré-frontal, região ligada à empatia e controle emocional;

  • Redução da atividade da amígdala, o que está correlacionado à menor incidência de reatividade ao estresse;

  • Melhor desenvolvimento vestibular e proprioceptivo, favorecendo o equilíbrio e a coordenação motora fina.

Ocitocina, apego e resiliência emocional

O contato pele a pele, proporcionado pela prática do carregamento corporal, induz a liberação de ocitocina tanto no cuidador quanto no bebê. Este hormônio desempenha papel crucial na construção do apego seguro, modelo mental que servirá de base para todas as futuras relações sociais da criança.

Bebês que desenvolvem um apego seguro demonstram:

  • Maior resiliência frente a situações adversas;

  • Desempenho superior em tarefas escolares;

  • Menor incidência de transtornos de ansiedade e depressão na vida adulta.


Comparação com Práticas Ocidentais: Benefícios e Limitações

Comparação com práticas de cuidados em outras culturas

O paradigma da independência precoce

Em muitos países ocidentais, sobretudo após a Revolução Industrial, a parentalidade passou a ser marcada por um discurso de autonomia precoce, onde berços, carrinhos e separação noturna foram adotados como normas. Essa tendência, no entanto, resultou em um afastamento físico entre mães e filhos, o que pode comprometer a consolidação de vínculos afetivos profundos.

Enquanto no modelo africano o bebê participa ativamente da vida social e cotidiana da família, no modelo ocidental predomina a individualização e a compartimentalização do cuidado.

Aspecto ComparadoModelo AfricanoModelo Ocidental
Proximidade físicaConstante, pele a peleIntermitente, com uso de berço e carrinho
Estímulo sensorialMultissensorial e imersivoParcial e programado
Construção de vínculoBaseada em presença contínuaBaseada em horários e rituais específicos
Regulação emocionalCompartilhada e orgânicaAutônoma e mediada por artefatos

Implementando o Método na Contemporaneidade: Orientações Técnicas

Escolha ergonômica do carregador

Para adaptar essa prática à realidade urbana moderna, recomenda-se o uso de carregadores ergonômicos — como slings e wraps — que respeitem a postura fisiológica do bebê (posição em “M”) e proporcionem conforto ao cuidador. É imprescindível que o equipamento:

  • Apoie bem a cabeça e a cervical do bebê;

  • Permita a livre movimentação dos quadris;

  • Distribua o peso de maneira uniforme nos ombros e quadris do adulto.

Postura ideal e segurança

A posição correta deve assegurar que o bebê esteja:

  • Com a face visível e livre para respirar;

  • Com o queixo fora do peito;

  • Bem ajustado ao corpo do cuidador, sem folgas excessivas.

Evite o uso contínuo em temperaturas extremas, garanta a ventilação adequada e monitore sinais de desconforto, como choro persistente ou calor excessivo.


Impacto no Desenvolvimento Psicomotor e Cognitivo

Dicas para implementar o método do carregar no corpo

O transporte corporal está diretamente relacionado à estimulação dos sistemas vestibular (equilíbrio), tátil (toque) e cinestésico (movimento), fundamentais para o desenvolvimento neurológico e motor da criança.

Bebês que são regularmente carregados:

  • Iniciam a marcha mais cedo;

  • Apresentam melhor consciência corporal;

  • Demonstram maior responsividade a estímulos sociais.

Além disso, a observação do mundo em movimento — como mercados, ruas, parques — contribui para o enriquecimento linguístico e cognitivo precoce, uma vez que a criança presencia e participa de interações verbais em tempo real.


Os Primeiros 1000 Dias: Período de Ouro para o Desenvolvimento

O conceito dos primeiros 1000 dias tem sido amplamente utilizado por pediatras, nutricionistas e psicólogos para enfatizar a importância do cuidado intensivo na infância inicial. Durante esse período, ocorre:

  • A formação das principais redes neurais;

  • O desenvolvimento do sistema imunológico;

  • A fixação de padrões afetivos e de comportamento.

Elementos críticos nesse período:

PilarImpacto
Nutrição adequadaFavorece o crescimento e o funcionamento cerebral
Estímulo afetivoGarante segurança emocional e autoestima
Estabilidade ambientalReduz o risco de trauma e transtornos mentais

Considerações Finais: Revalorizando Saberes Ancestrais

A prática de carregar o bebê no corpo, apesar de parecer simples, carrega em si uma profunda sabedoria ancestral sobre o desenvolvimento humano. Em tempos de crescente medicalização e distanciamento digital, retomar tais práticas pode significar um resgate da parentalidade intuitiva, empática e responsiva.

Mais do que um retorno ao passado, trata-se de reconhecer a eficácia de métodos tradicionais à luz da ciência contemporânea. A fusão entre conhecimento empírico e evidência científica reforça o valor inestimável dessa prática milenar, apontando caminhos para uma criação mais afetiva, consciente e integral.

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